Olá
pessoal!
Bem-vindos a mais uma semana na bioquímica do parto humanizado. Hoje
iremos abordar um assunto polêmico, ético e questão de vida ou morte para
algumas pessoas: o transplante de medula óssea e sangue de cordão umbilical.
O transplante de medula óssea
(TMO), primeiramente, consiste na infusão intravenosa de células progenitoras
hematopoiéticas com o objetivo de restabelecer a função medular nos pacientes
com medula óssea danificada. E esse procedimento podem ser feitos de três
formas:
· Transplante
alogênico, em que o paciente recebe a medula de uma outra pessoa, que pode
ser algum familiar ou não;
· Transplante
singênico, em que o doador é um irmão gêmeo idêntico(portanto, a mais
rara).
· Transplante
autogênico, que utiliza as células do próprio paciente coletadas
previamente.
![]() |
Figura 1. Transplante de medula. |
As células progenitoras
hematopoiéticas podem ser coletadas diretamente da crista ilíaca, do sangue
periférico ou mais recentemente do sangue de cordão umbilical(SCU). A primeira
experiência bem sucedida no uso do sangue de cordão umbilical como fonte de células
para reconstituição de medula óssea ocorreu em 1988, quando a Dra. Eliane
Gluckman, na França, tratou com sucesso um paciente portador de anemia de
Fanconi, utilizando o sangue do cordão umbilical de seu irmão para reconstituir
a função medular após quimioterapia mieloablativa. O sangue de cordão umbilical
é coletado logo após o nascimento da criança, sendo posteriormente processado e
mantido congelado até a infusão.
![]() |
Figura 2. Coleta |
A coleta, o processamento, o
congelamento e a utilização do SCU seguem os seguintes passos:
· Logo após o nascimento, o cordão é clampeado
pelo obstetra e entregue à enfermeira responsável pela coleta, que vai
puncionar a veia umbilical com uma agulha conectada a uma bolsa de coleta. A
placenta é colocada em um suporte estéril mais elevado que a bolsa e o sangue
flui por gravidade;
· A bolsa é posteriormente enviada ao banco de
sangue para processamento. A gestante é entrevistada e colhe-se amostra de
sangue para realização de exames sorológicos maternos;
· No banco de sangue, é colhida da bolsa uma amostra
de sangue para tipagem HLA, exames sorológicos e bacteriológicos e contagem das
células; posteriormente, a bolsa é processada e congelada em nitrogênio
líquido;
·
Quando todos os resultados ficam prontos, a
bolsa torna-se disponível para o uso; havendo problemas com os exames, o sangue
pode ser descartado;
· O banco de dados do banco de sangue de cordão
umbilical é alimentado com todas as informações referentes às bolsas.
Atualmente são feitos transplantes quando o número de antígenos HLA
incompatíveis é igual ou menor que 2 e a quantidade de células da bolsa é
superior a 2 X 107 células por quilo de peso do receptor;
·
Quando um paciente encontra uma unidade adequada
de SCU, esta unidade é enviada para o serviço que realizará o transplante,
acondicionada em um botijão especial que contém nitrogênio líquido.
![]() |
Figura 3. |
O SCU possui propriedades muito
interessantes: menor probabilidade de induzir doença enxerto contra
hospedeiro(DECH) aguda e crônica, mesmo quando a tipagem HLA(human leukocyte
antigen) não é totalmente compatível com a do receptor, aparentemente mantém o
efeito enxerto contra leucemia e apresenta menor índice de infecções por vírus
como EBV(Vírus Epstein Barr) e CMV92(Citomegalovírus 92).
Portanto, o sangue do cordão
umbilical deve ser meio de salvar vidas cada vez mais utilizado. A
compatibilidade tem que ser bem maior, é verdade; mas nada nos impede de tentar
e usar todos os meios possíveis e cientificamente comprovados para reduzir o
número de mortes por danos na medula óssea.
DE
CASTRO JR, Cláudio Galvão; GREGIANIN, Lauro José; BRUNETTO, Algemir Lunardi.
Transplante de medula óssea e transplante de sangue de cordão umbilical em
pediatria. J Pediatr (Rio J),
v. 77, n. 5, p. 345-60, 2001.
Childs R, Chernoff A, Contentin N, Bahceci E,
Schrump D, Leitman S, et al. Regression of metastatic renal-cell carcinoma
after nonmyeloablative allogeneic peripheral-blood stem-cell transplantation. New
Engl J Med 2000; 343:750-8.
Armitage JO. Bone Marrow Transplantation. N
Engl J Med 1994; 330: 827-38
GRUPO L
ResponderExcluirMuito importante abordar esse tema do uso de células tronco do cordão umbilical, pois a prática de se processar e armazenar o sangue dessa estrutura tem se tornado bem frequente no Brasil, onde ainda não há regulamentação para o uso do sangue de cordão umbilical e placentário para fins terapêuticos. Nesse sangue do cordão umbilical há um grande número de células-tronco hematopoiéticas que têm características adultas, porém são mais imaturas e ainda pouco estimuladas. O sangue do cordão é uma das fontes de células-tronco para o transplante de medula óssea e este é o único uso deste material atualmente. O transplante é indicado para pacientes com leucemia aguda; leucemia mieloide crônica; leucemia mielomonocítica crônica; linfomas; anemias graves; anemias congênitas; hemoglobinopatias; imunodeficiências congênitas; mieloma múltiplo; Síndrome mielodisplásica hipocelular; Imunodeficiência combinada severa; osteopetrose; mielofibrose primária em fase evolutiva; Síndrome mielodisplásica em transformação; talassemia major, além de outras doenças do sistema sanguíneo e imune (cerca de 70 indicações). A principal vantagem é que as células do cordão estão imediatamente disponíveis não havendo necessidade de localizar o doador e submetê-lo à retirada da medula óssea. Além disso, não é necessária a compatibilidade total entre o sangue do cordão e o paciente. Porém o assunto é permeado de polêmica. A Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) manifestou por meio de nota oficial sua preocupação quanto ao armazenamento do sangue de cordão umbilical para uso autólogo. Argumenta que a leucemia, por exemplo, principal causa de câncer em crianças, é a mais citada como argumentação dos bancos privados junto aos pais, como forma de prevenção à saúde, mas a utilização do próprio sangue de cordão para o transplante desta criança será inútil. Isso porque trabalhos na literatura médica demonstram que a carga genética para a leucemia já se encontra presente desde o nascimento. Assim, é preciso que os estudos que ainda se encontram em fase experimental, ganhem respaldo científico.
REFERÊNCIA:
Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) http://www.abhh.org.br/noticia/abhh-alerta-sangue-de-cordao-umbilical-nao-e-seguro-de-saude-2/
Muito boa a postagem, pessoal !
ResponderExcluirHá alguns estudos recentes feitos nos EUA, onde uma forma mais branda de transplante de medula óssea poderia curar a anemia falciforme grave.
Nessa anemia uma molécula de HbS contém duas cadeias alfas normais e duas cadeias betas mutantes, nas quais o ácido glutâmico da posição 6 é substituído pela valina. Assim, durante uma eletroforese em pH alcalino, a HbS migra mais lentamente em direção ao ânodo (eletrodo positivo) do que a HbA. Essa alteração na mobilidade é o resultado da ausência dos resíduos de glutamato negativamente carregados nas duas cadeias betas, tornando assim a HbS menos negativa que a HbA. No livro Bioquímica Ilustrada - Pamela e Harvey (de onde eu tirei essas informações), vocês podem ler mais sobre o assunto, caso interesse, claro.
Ansiosa pela próxima postagem :)
GRUPO A
A reportagem é essa aqui: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/07/1479591-transplante-mais-brando-cura-anemia-falciforme-em-estudo-com-adultos.shtml
Parabéns pelo post.
ResponderExcluirInfelizmente no Brasil, a doação de medula óssea ainda não se popularizou entre os brasileiros. As dúvidas sobre o procedimento e os mitos que os cerca favorecem para o baixo número de doadores. Além disso, os hospitais que estão preparados para realizar o transplante ainda são poucos no Brasil e estão em torno de 70, o que as vezes pode inviabilizar possíveis doadores devido a distância para esses locais.
Em relação a bioquímica, é interessante que o paciente que recebe a nova medula acaba adquirindo o mesmo tipo sanguíneo do doador, daí o fato que o doador não necessariamente precisa ter o mesmo tipo sanguíneo do paciente.
Grupo J
ResponderExcluirÓtima Postagem!
O sangue do cordão umbilical do recém-nascido, antes descartado, passou a ter um outro valor, pois é rico em células-tronco, capazes de se diferenciar nos diversos tipos de células do sangue. Agora, o cordão umbilical pode ser doado e o sangue proveniente dele armazenado em baixíssimas temperaturas. O objetivo é utilizar esse sangue nas terapias que antes exigiam o transplante de medula óssea.No transplante de células de cordão, as células-tronco têm a capacidade comprovada de formar novas células de sangue. O sangue de cordão umbilical pode ser utilizado, também, em outras três situações:
-como suporte durante o tratamento de outros tipos de câncer, quando as células-tronco entram como uma ajuda extra para a recuperação do sistema imunológico, enfraquecido pelas sessões de quimioterapia;
-no tratamento da anemia aplástica, uma situação rara em que a medula óssea do paciente não é capaz de manter a produção de células do sangue;
-em imunodeficiências congênitas graves em crianças, quando há falhas na geração das células do sangue que participam da defesa do organismo contra infecções.
As células do sangue de cordão umbilical exigem menor compatibilidade genética – semelhança genética entre doador e receptor - do que as de medula óssea, o que facilita o uso dessas células em transplantes. A única desvantagem é que a quantidade de células encontradas no cordão do recém-nascido é suficiente apenas para suprir as necessidades de uma criança ou de um adulto pesando até 60 quilos. Essa limitação começa a ser vencida com o crescimento dos bancos públicos de sangue de cordão umbilical.
Referência: http://www.scielo.br/pdf/jped/v77n5/v77n5a04.pdf
Excelente postagem! Muito bom esclarecer o assunto do congelamento de sangue do cordão umbilical para usos terapêuticos futuros, mas a Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea emitiu uma nota oficial em 2014 dizendo que a reserva em instituições privadas para uso particular pode representar uma prática inútil. Até o momento, com as evidências existentes, não há razão para que um determinado cordão fique reservado apenas a seu dono ou família, já que apenas 4% do inventário de um banco de sangue de cordão umbilical serão efetivamente utilizados. Com o tempo, inclusive, o produto pode se deteriorar. Do ponto de vista científico, não foi ainda definida a importância das células-tronco de cordão na medicina regenerativa, pois as células-tronco adultas, disponíveis em todos nós, parecem ser igualmente eficientes. Assim, não se justificam os congelamentos alardeados pelo setor privado.
ResponderExcluirCélulas-tronco mesenquimais são um tipo particular de células-tronco, de produção relativamente simples e barata, presente em quase todos os órgãos e tecidos do nosso corpo e na "parede" do cordão umbilical. Estas últimas parecem ter propriedades superiores e vantagem na regeneração tecidual. Alguns bancos de sangue de cordão umbilical privados do centro do país estão incluindo no "cardápio de possibilidades", oferecido em folhetos de marketing, a possibilidade de também congelar o cordão além das suas células. Bom, mas no nosso país, em caso de indicativo para transplante de sangue de cordão umbilical há a opção de recorrer à Rede de Bancos de Sangue de Cordão Umbilical Públicos do que possuem extenso registro de doadores e representam uma chance real e ampliada de encontrar um doador compatível para o transplante :D
É preciso disseminar mais essa possibilidade de doação para os bancos públicos, mas já estamos avançando muito!
Até a proxima (;
GRUPO E:
ResponderExcluirPostagem bastante curiosa. Adoramos! Como já foi bastante comentado, o sangue do cordão umbilical apresenta algumas boas vantagens para tratamentos, não só de transplantes de medula, mas até mesmo de alguns tratamentos cancerígenas, tais como: 1- não recebe tanta polêmica quanto o uso de células embrionários; 2- alto potencial de diferenciação celular, fazendo com que essas células possam ter diferenciações adequadas conforme o tratamento; 3- não precisa de uma alta compatibilidade genética entre doador e receptor, facilitando o acesso a esses tratamentos. Porém, há o inconveniente da quantidade, que é pequena, exigindo a formação de bancos que aos poucos já estão se desenvolvendo no Brasil. Assim, tratamentos para essas enfermidades tendem a se tornar mais democráticos.
GRUPO E:
ResponderExcluirPostagem bastante curiosa. Adoramos! Como já foi bastante comentado, o sangue do cordão umbilical apresenta algumas boas vantagens para tratamentos, não só de transplantes de medula, mas até mesmo de alguns tratamentos cancerígenas, tais como: 1- não recebe tanta polêmica quanto o uso de células embrionários; 2- alto potencial de diferenciação celular, fazendo com que essas células possam ter diferenciações adequadas conforme o tratamento; 3- não precisa de uma alta compatibilidade genética entre doador e receptor, facilitando o acesso a esses tratamentos. Porém, há o inconveniente da quantidade, que é pequena, exigindo a formação de bancos que aos poucos já estão se desenvolvendo no Brasil. Assim, tratamentos para essas enfermidades tendem a se tornar mais democráticos.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluir